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Quero deixar-vos aqui uma história que escrevi especialmente para este dia. Espero que gostem.


Aos primeiros raios de sol o chefe Mubanga mandou chamar os seus três filhos para uma conversa importante. Uma decisão que haveria de mudar para sempre a vida em Kuzaka, a pequena aldeia verdejante, à beira de um pequeno e estável rio, perdida nos confins de África. Noutro qualquer lugar da terra Mubanga seria um grande estadista. A sua curiosidade em relação ao mundo exterior trouxe para Kuzaka muitas inovações, não sem que antes fossem devidamente ponderadas e discutidas entre o conselho dos sábios, para garantir que o equilíbrio e a harmonia seriam preservados.

Eram, em centenas de quilómetros, a única aldeia onde as crianças iam à escola. Eram também a única aldeia que produzia os seus próprios alimentos. Agora preparavam-se para ser a primeira aldeia a eleger o seu chefe. Mubanga estudara com atenção essa coisa moderna da democracia. Estava até disposto a aplicá-la tal e qual como os gregos a criaram, mas os sábios acharam que o povo não entenderia. O chefe, e os filhos do chefe, eram criaturas de Deus, sem eles no comando as desgraças e a insegurança iriam abater-se sobre a aldeia. Por isso, chegada a hora de nomear um sucessor, chamou os 3 filhos: Razuba, Kalenko e Maluto. Explicou-lhes o que iria acontecer.

Tinham até ao cair do sol para falar com todos os habitantes da aldeia e demonstrar-lhes porque deveriam elegê-los “Chefe de Kuzaka”. Na manhã seguinte todos os habitantes depositariam, em segredo, uma pedra branca, confiada a cada cidadão por Mubanga em pessoa, num dos 3 caixotes que simbolizavam cada um dos candidatos. Quem tivesse mais pedras seria o próximo chefe da aldeia.

A ideia não agradou muito a Maluto. Ele era o mais velho, era também aquele que já ajudava o pai na governação da aldeia e ambicionava ser o próximo chefe. Acabou por aceitar, porque sabia que na sua tribo o chefe era sempre escolhido, por outro chefe e pelos sábios, de entre os herdeiros directos, sem restrições. Razuba, a única filha, aceitou a ideia e quis antes saber o que esperava o pai dela. Como não pensara vir a ser um líder, nunca tinha pensado verdadeiramente nas funções de um. Já Kalenko, o mais novo, que sempre ambicionara ser o chefe, nem esperou que a conversa acabasse e correu para a rua em busca de pessoas.

A eleição era livre. Todos podiam votar. Desde crianças, que já falassem, até aos sábios e aos próprios Maluto, Razuba e Kalenko. A aldeia tinha pouco mais de 100 pessoas, assim divididas: - Cerca de 15 eram sábios. Os mais velhos da aldeia. Já não trabalhavam. Passavam o dia sentados à beira do rio a debater o futuro da aldeia e a resolver os conflitos entre os habitantes. Para eles o mais importante era o sossego e a calma do rio, calma essa que era interrompida pelas crianças mal acabava a escola e pelos adultos que pescavam pela manhã.

- Cerca de 70 eram homens e mulheres adultos. Eles pescavam no rio, caçavam e manufacturavam os objectos de que a comunidade necessitava. Elas cultivavam os campos e tratavam das casas enquanto os filhos estavam na escola. Para eles a escola tinha sido algo verdadeiramente importante, porque as crianças sem nada para fazer afugentavam o peixe e a caça ao mesmo tempo que ocupavam as mães.

- Cerca de 25 eram crianças. Passavam grande parte do dia na escola, coisa que não lhes agradava muito. Preferiam não ter nada para fazer e correr pela floresta ou banhar-se no rio.

Maluto pensou que se conquistasse os 70 adultos ganharia facilmente. Foi isso que fez. Concentrou-se neles e garantiu-lhes que, com ele como chefe, a escola das crianças iria continuar. Sugeriu até criar algumas actividades para manter as crianças ocupadas mais tempo. Lembrou ainda que os sábios eram muito importantes e por isso quando lá chegassem teriam que ter melhores condições e conforto. Assim levou o dia.

Razuba quis falar com todos. Explicou às crianças que manteria a escola, mesmo contra a vontade deles, porque seria importante no futuro e porque toda a aldeia beneficiava disso. Explicou aos adultos que teriam que se organizar porque as crianças precisavam de brincar, explorar e aprender na floresta e no rio aquilo que não se aprende na escola. Explicou depois aos sábios que o rio era de todos, seria por isso bom que permitissem às crianças que para lá fossem, sugerindo que encontrassem um outro local para as conversas da tarde. Assim levou o dia.

Kalenko também falou com todos. Prometeu às crianças que acabaria com a escola no dia seguinte a ser nomeado chefe. Depois falou com os adultos e disse-lhes que arranjaria forma de a escola das crianças começar ao nascer do sol e só acabar quando este se pusesse. Por último explicou aos sábios que pretendia proibir todos os outros de ir ao rio, para que pudessem, com toda a tranquilidade, passar o seu tempo. Assim levou o dia.

Quando o sol se pôs os 3 irmãos foram ter com o seu pai. Todos tinham gostado da experiência. Maluto e Kalenko estavam confiantes na vitória. Durante todo o dia apenas ouviram apoios e viram sorrisos. Já Razuba estava algo preocupada. Muitas pessoas tinham ficado com cara de poucos amigos perante a sua intransigência em ceder. Despediram-se e foram dormir, ansiosos pela manhã seguinte.

Quando o sol nasceu toda a aldeia se dirigiu para o rio. Malunga explicou o processo e pediu a todos para olharem, em silêncio, antes de votar, para os seus familiares directos. Pais olharam para filhos, mulheres para maridos, avôs para netos… durante largos minutos. Depois Malunga deu, à vez, uma pedra branca a cada cidadão, que se dirigia à aldeia e a depositava no caixote do seu eleito, colocada à porta da casa de cada um. Durante toda a manhã votou-se em Kuzaka. À tarde os caixotes foram transportados para o rio onde os sábios contaram os votos. Aqui fica a votação do sábio povo de Kuzaka:

- Malunga – 29 votos

- Razuba – 88 votos

- Kalenko – 1 voto

Amanhã, se não puderem olhar para os vossos familiares directos, pensem neles antes de votar. Não se trata de decidir o futuro de cada um, trata-se de decidir o futuro de todos.

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5 comentários

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De José Nunes a 28.09.2013 às 15:19

Se a Razuba por cá fiz-se campanha era atirada ao rio,aqui a verdade é maldita,a mentira e libertinagem são os valores que florescem,assim vai o Circo.
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De MRT a 28.09.2013 às 15:58

Muito bom. Uma bela metáfora que nos ajuda a reflectir. Sabes que se usasses este estilo mais vezes tinhas mais sucesso e menos dissabores, apesar de também eu me apetecer dizer aquilo que escreves.
Um abraço,
MT
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De Manuel Ramos a 28.09.2013 às 16:29

Bonita história.
É pena é que as eleições fossem impugnadas por aldrabice. Há mais votos que votantes! :)
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De Paulo Silva a 28.09.2013 às 17:04

Manuel Ramos, A história diz "pouco mas de 100"... ora 118 encaixa na lógica "pouco mais de 100"!!
Um abraço.
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De António Duarte a 29.09.2013 às 11:55

Estamos perante uma história onde, nalguns trechos, não bate a bota com a perdigota.  Digo isto porque num meio como aquele (relativamente árido) onde já existe agricultura, e produzem todos os seus alimentos, dificilmente os velhos poderiam levar o dia a " filosofar " junto ao rio, os adultos a pescar e as crianças a afugentar os peixes com suas brincadeiras aquáticas. Só falta saber se eram as mulheres que faziam os trabalhos todos, desde o campo á cozinha, onde não haveria fogão a gás, frigorífico, nem microondas.
   Quanto à votação, está mais que claro que, perante aquela campanha, que seria o aldrabão do Kalenko a conseguir a maioria absoluta. Todos estamos fartos de saber que a demagogia, bem feita, conquista muitos votos...Dali a nada, estaríamos perante mais uma aldeia de em declínio, que só subsistiria com "ajudas" externas...

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