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AUTO DA FÉ

26.03.10

 

Há dias, enquanto passeava perto de casa, dei por mim a olhar para uma criança que teria 4 ou 5 anos. Seguia com os seus pais, de aspecto bastante humilde, no banco de trás de um ainda mais humilde automóvel, e, com as duas mãos no vidro lateral e cara entre elas, olhava para o exterior como se os seus olhos contemplassem a mais bela coisa que vira na sua, ainda, curta existência. Não sei para o que olhava. Sei apenas que por uns instantes me revi naquela cena, naquele carro, em criança, com os meus pais… e pensei no que pode ser o mundo visto pelos olhos de uma criança. Depois pensei no que seria o futuro daquele menino e na responsabilidade que temos, enquanto adultos, nele.

Não me seduz a igualdade entre os homens por achar que no interior não somos iguais. O direito à diferença, à opção de trabalhar muito ou pouco, e com isso ter resultados diferentes, é para mim sagrado. Defendo, isso sim, a igualdade de oportunidades. Defendo que todos os “meninos”, de todas as classes, credos e nacionalidades devem ter exactamente as mesmas oportunidades e o mesmo direito de fazerem com elas aquilo que bem entenderem. Defendo também que o principal pensamento de um politico deverá ser os “meninos”ou, traduzindo a metáfora, os interesses dos seus eleitores numa perspectiva de longo prazo.

Thomas Jefferson disse um dia que “a diferença entre um político e um estadista é que o político apenas anseia pela próxima eleição, enquanto o estadista anseia pela próxima geração.” Se estivesse vivo, e conhecesse a realidade política em Portugal, Jefferson bradaria aos céus quando verificasse que todo o sistema está montado e comprovado como sendo “à prova de estadistas”, desde logo porque impera a visão a curto prazo (isto quando a visão ultrapassa o próprio umbigo).

Os estadistas são chatos. Pensam nas pessoas, nos eleitores, no médio e longo prazo. Dizem a verdade e não se importam de criar roturas ou enfrentar lobbys poderosos. Marimba-se para os interesses do “partido” e para os parasitas que os tentam cercar a toda a hora. Um estadista tem vergonha na cara e sente o peso da responsabilidade que carrega. Um estadista é “até capaz” (ironia pura) de se rodear de gente competente que não pertença “à sua família política” (seja lá isso o que for)!! Imagine-se tamanha heresia!

É por estas, e por outras, que os estadistas são corridos dos partidos e quando aparecem são recebidos à pedrada pelos militantes. Afinal, para que serve ser-se militante de um partido se quando esse partido está no poder não nos arranjam uns tachos?! Para que serve “abanar o rabo” sem sequer pensar, a subserviência, o sectarismo e a intolerância se depois “não pinga”?! Não interessa a competência, interessa o cartão de militante, os favores que se fizeram e o apoio que se deu. O militante até pode ser um enorme estúpido e desqualificado, mas se foi fiel será agraciado com um “jobzito”, num qualquer canto, de um qualquer aparelho controlado pelos boys e pago pelo contribuinte. Uns aceitam com vergonha e procuram não dar muito nas vistas, outros gabam-se das influências que moveram para alcançar o “Job” deixando-nos com um nó na garganta e com a sensação de que isto não tem salvação.

O que aconteceu aos partidos movidos por ideais, por convicções ou pelo interesse nacional?! O que aconteceu aos partidos interventivos localmente e sempre atentos aos talentos que podiam recrutar? São perguntas a que não sei responder. O que sei é que os “hereges” começam a contestar, a conspirar e a demonstrar vontade de criar alternativas na mesma proporção em que concelhias e distritais se esvaziam de pessoas, de ideias e de interesse. Os partidos políticos, como as empresas, crescem quando permitem que surjam inovações, rupturas, mudanças… Quando o objectivo é deixar tudo na mesma, em nome de interesses pessoais e partidários, começam a definhar, a morrer lentamente e a empurrar os tais “hereges” para outros campos.

Os nossos políticos, que na sua esmagadora maioria nada têm de estadistas, sabem bem que o que digo é verdade mas na sua sagaz ambição pessoal de “curto prazo” lá vão insistindo no modelo esgotado, tal como quem tira as últimas pingas de leite de uma “vaca faminta”. São poucos os sinais de que a coisa possa mudar e quando algum surge devemos congratular-nos e desejar o melhor possível. Novas pessoas, novas ideias e novos rumos assomam no horizonte do maior partido da oposição no nosso concelho. Vamos ter fé!

 

In jornal Terra Ruiva - Março de 2010

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2 comentários

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De Mário Soares a 26.03.2010 às 14:16

ês mesmo anjinho. o que vai mudar são apenas as moscas. não vês que o partido nem sequer tem militantes para preencher duas listas e que o interesse é mesmo esse!
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De minita a 08.04.2010 às 15:52

Gosto bastante do que escreve. A nossa classe politica é de nível zero, enquanto essas mentes existirem o nosso pais continuará assim. È lamentável.
Assino por baixo.

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